quinta-feira, 24 de março de 2011

Seguro

Já era dia seguinte. Ela acordou diferente, como andava diferente essa moça nos últimos dias. Olhou para o calendário. O coração apertou-se de saudade. Era um tempão para sua urgência de viver. Calculou, calculou. Fez o relógio enlouquecer e a vida dar um nó. Espremeu possibilidades. Encontrou a perfeita. Mas não havia o perfeito, pois não havia o recíproco. Não havia par. Era vontade única. Era a sua mente, os seus sentidos e o seu coração que se agitavam sozinhos em uníssono, em uma canção somente sua.

Olhou para a janela, a tarde já caia. Sentiu uma imensa saudade do que não viveu. Recolheu, sozinha, os seus sorrisos soltos que andavam passeando a esmo. Recompôs a sua órbita serena. Inseriu o seu planeta no velho ciclo. Fez isso, mesmo enquanto todo o resto do seu interior implorava para fugir no último bondinho, rumo ao pôr-do-sol, ansioso por ver o céu alaranjado e os pássaros brincando em bando próximos à montanha. Fez isso, mesmo quando todos os seus sentidos suplicavam pelo silêncio em dueto, quando seus poros pediam aquela mesma metade que adormeceu no seu ombro, enquanto ela acarinhava e velava seu sono, no meio de uma multidão.

Fez isso sem saber o certo. Fez isso sabendo o seguro.


O último pôr-do-sol - Lenine

quinta-feira, 17 de março de 2011

Fogo de Rei. Majestade de Rainha

O tempo soprava ventania, maquiava tempestade. Oxum, astuta, vestiu-se de cobre, misturou suas jóias e saiu como sua irmã. Na noite que despontava, havia festa, beleza, havia guerra de paz, havia deboche, havia sensualidade. Inhasã, apesar das desavenças com Oxum, gostou do que viu e resolveu brincar de brisa. Saíram ambas, ladeira abaixo a zombar dos olhares que não as reconheciam em um corpo só.

Misturadas traziam o melhor de cada uma: a ousadia do vento, que não pede permissão e invade todos os espaços, e a sensualidade da cachoeira reluzente, que acaricia e enfeitiça os que se deitam sob ela.

Atraindo olhares, passeavam por todos os deuses pagãos que se divertiam na festa junto aos mortais, mas ninguém as reconhecia. Elas, por sua vez, apenas sorriam de um jeito meio menina, meio mulher. Foi aí que cruzaram com três homens. Um dos mortais as parou, pensando ser uma única, elas lhe sorriram e conversaram como uma mulher qualquer, porém entre eles havia um rei. O único que já desposara as duas, aquele que perdia a cabeça por ambas e, também, o único que as dominava com sua firmeza.

Sem pedir licença, ignorando o pobre mortal, o rei lançou-lhes as palavras certas. Exalou o seu cheiro, o seu poder. A força do seu fogo que leva para o seu reino tudo o que ele deseja, que transforma, em sua, toda mulher que ele escolhe.

Quando ele tirou-lhes a máscara de cobre e sentiu o gosto das duas, fez com que elas, naquele exato momento, se fundissem pra sempre. Não era mais Oxum, não era mais Inhasã, era Opará, uma terceira deusa, nascendo para o seu Xangô, o seu rei soberano. Surgiu ali uma jovem majestosa que, de mãos dadas com o fogo, saiu a rir de um jeito só dela, exibindo sua fresca beleza misturada aos mortais.

Sem que o mundo notasse, a chama de Xangô se acendeu e lançou na festa o seu fogo, o fogo que jamais finda. Opará, sendo meio vento, meio água, apagava e tornava a acender tudo o que mais amava em seu rei.

Foi em meio a essas brasas que os dois sumiram na multidão. Nunca mais foram vistos, mas são sentidos toda vez que corpos ardem em um desejo que jamais sucumbe. É assim que Opará e Xangô vivem nessa terra de mistérios. Foi assim que eles se eternizaram.


Oxum Opará

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ele

Um jeito só dele de prender o cabelo,
aquele cabelo que hipnotiza,
que se mistura ao seu sorriso largo,
que completa seu jeito despojado e blasé,
um blasé só seu,
um blasé que contradiz o dicionário,
negro, lindo, altivo, contemplativo, simpático.

Sua diversão observando o todo,
a perspicácia que me faz rir,
um jeito discreto de me beijar na multidão.
A fome que suporta até miojo salgado.
A gentileza a me dizer, a cada volta, que estou mais linda.

Um jeito solto de contar seus pormenores,
detalhes tão diminutos a desvendá-lo a conta-gotas.
Seu silêncio momentâneo.
Seu silêncio a convidar o meu.

O seu olhar que olha à mar,
sua vida que vive à mar,
sua alma livre que cheira à mar.

A delicadeza sussurrante, só dele, a sugerir o indelicado.
O sorriso malicioso, só meu, a responder o natural.

O cheiro que ainda sinto,
o gosto que ainda desejo,
o sorriso espontâneo que os meus sentidos trazem...
“Prazer, eu sou a sua melhor lembrança da PRAÇA SECA”.


Jah Work - Ben Harpen

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vontade

A onda que cresce a consumir o todo,
forma-se linda,
gargalha do vento,
viola a ordem das marés,
dança com despretensão.

Inverte o ciclo,
cria o seu real,
pincela um novo universo,
malicia o seu infinito,
inunda o mundo.

O encontro de olhar,
a lembrança que retorce as pernas,
a explosão imediata.

A libido a zombar da correria.
O segundo a desdenhar das horas.
O mar que corre da sua boca.
O mar que corre para minha boca.
Vontade...


Solidão Gasolina, Curumim

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Vigília do tempo

Caminhava com seu vestido mais leve. Um de flores miúdas que a deixava com a alma mais adolescente. Da sua calçada olhava os espaços, buscando cores novas. Flores novas para o seu jardim.

Era época de colheita matutina. Havia algum tempo que obedecia esse ritual. Gostava de sentir o cheiro fresco da manhã nova. Andar acompanhada do silêncio de vozes. Ir somente embalada pelos pássaros que sempre conseguiram acordar antes dela. Caminhava sendo recebida pelos sorrisos calados e educados dos senhores e senhoras que, da mesma maneira que a mulher, porém com muito mais sabedoria e outra medida de pesar, acordavam ainda noite, mesmo quando podiam se fartar em seus lençóis.

Ela acordava não para caminhar, mas sim para olhar, do banco solitário, o nada que vinha nascendo. Ele sempre nascia, independente do que houvesse, e sempre vinha carregado de coisas que para ela nada diziam.

Olhava e voltava a olhar aquele cintilar. Buscava incansavelmente as cores que ainda faltavam. O tempo ia passando, o mundo ia clareando, os cabelos mudando, as estações, o tamanho das crianças. As cores não. As cores surgiam sempre uma mutação do mesmo tom.

O vestido ficou gasto. O rosto gasto. A alma gasta. Ela ainda se sentava no banco esperando, com a esperança que não desgastava, as cores que faltavam para o seu jardim.


Canto Triste, Mônica Salmaso (Edu Lobo / Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mulher não disponível

Foi andando com aquele seu jeito. O passo cadenciado. O queixo em pé, mas o olhar vacilante, que para um bom observador isso é sintoma nato de timidez. Já se fizera uma mulher e por isso, a essa altura da vida, administrava muito bem esse seu lado. Uma polidez que até lhe conferia certo charme.

Já ouvira diversos comentários e análises a seu respeito, mas a que ela jamais esqueceu foi: “Você tem cara de mulher não disponível”. Ela nunca havia pensado nisso, mas ficou intrigada. O moço afirmava que ela parecia aquelas mulheres muito simpáticas, bonitas, porém muito bem casadas.

Ela riu, se divertiu com a história, mas refletiu que isso, pra uma mulher solteira, as vezes é um complicador. Gostou e não de gostou.
Em dias de poder, ela adora se imaginar assim.
Em dias de solidão, preferia ter outra transparência.
Mas ela é cristal e não adianta, parece que ele estava certo. Talvez ela nunca consiga se portar, totalmente, como uma moça disponível. Porém a madrugada é a sua casa, a lira, o seu encanto, e a orgia, o seu bem. Já o breu, esse é o seu melhor cúmplice e disfarce.


Beijo Sem (Teresa Cristina e Marisa Monte).

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2010

A sala estava vazia. O peito ainda cheio. Não havia silêncio em lugar algum. Todo seu universo murmurava. Não mais gritava, como em tempos de mocidade. Os anos o doutrinaram e agora ele apenas emitia sons educados e silenciosos, que muitas vezes falavam só pelo olhar.

No ano corrido aprendeu a conviver com a perda. Entender que não existe poder sobre o destino. “Que a dor é vai e vem, qual onda no mar”, como diz a sua canção preferida.

Nada de mágoa remoída, uma serenidade construída à tijolos de desespero. Uma sanidade que vinha do insano.

Gostava-se mais agora. Sofria mais agora, pois o silêncio é inimigo do alívio. Notava que a cada dia todos morrem um pouco. O tempo é ouro e paciência virtude.

Não tinha do que reclamar, porém sua alma se despedia de mais um ano lindo cheia de saudades do que não viveu. Será que a vida é essa eterna saudade? Que a evolução é a resignação do que não chega? É sempre sorrir, apenas porque tudo correu bem? Finda o ano melancólica, mas lutando para fazer “do verso uma canção delicada...”, combinando assim com seu jeito sorridente de viver.


Delicada, Teresa Cristina, grávida e cheia de luz. A vida se renovando...