A trilha do dia era outra.
O texto que chegou a tela pela manhã, trazido pela inspiração da esperança, era outro.
A tarde cai.
A trilha muda. Inusitada.
Quem disse que a vida não é inusitada. Não é mesmo poeta?
Minha - Cartola
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Coisas de mãe
Entregou seu coração no rio dela. Eram águas calmas, cristalinas de fundo reluzente. Foi nele que resplandeceu a beleza do presente que lhe sorria. Mas as águas calmas também têm correnteza, porém leve, delicada, estrategicamente colocada pela natureza no curso para manter a limpidez. Com ela o coração posto foi deslocando-se calmamente, passo a passo, no rumo que Oxum queria e determinava.
Mamãe mirava no seu olho, como que dizendo: confie em mim. O coração rolou cachoeira abaixo. Oxossi, o dono de tudo naquele planeta, quando viu aquilo, soltou o seu ilá no meio da mata e veio buscar. Já avançava rio a dentro para apanhá-lo, quando a esposa segurou sua mão delicadamente, porém com a firmeza que só as mães têm. Ficou muda, mas seus olhos diziam: “Deixa... Confie no amor... Não vamos deixá-la se esconder no mato dessa vez”.
Pela manhã, a filha, que já acordou determinada a correr para sua selva moderna, permaneceu impassível, forte, altiva e independente, tal como o pai. Ao chegar no seu destino, a primeira coisa que fez foi escutar sua mãe cantar. Resolveu escrever para o presente recebido, porém com as letras firmes do pai. A resposta veio imediata, porém com a doçura das palavras plantadas pela mãe. Ela entendeu o recado. Sorriu e agradeceu. Existem lições que só as mães sabem dar.
É D'Oxum, Rita Ribeiro.
Mamãe mirava no seu olho, como que dizendo: confie em mim. O coração rolou cachoeira abaixo. Oxossi, o dono de tudo naquele planeta, quando viu aquilo, soltou o seu ilá no meio da mata e veio buscar. Já avançava rio a dentro para apanhá-lo, quando a esposa segurou sua mão delicadamente, porém com a firmeza que só as mães têm. Ficou muda, mas seus olhos diziam: “Deixa... Confie no amor... Não vamos deixá-la se esconder no mato dessa vez”.
Pela manhã, a filha, que já acordou determinada a correr para sua selva moderna, permaneceu impassível, forte, altiva e independente, tal como o pai. Ao chegar no seu destino, a primeira coisa que fez foi escutar sua mãe cantar. Resolveu escrever para o presente recebido, porém com as letras firmes do pai. A resposta veio imediata, porém com a doçura das palavras plantadas pela mãe. Ela entendeu o recado. Sorriu e agradeceu. Existem lições que só as mães sabem dar.
É D'Oxum, Rita Ribeiro.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Despertar
Não mais lembrava-se daquela sensação. O rotina já havia pasteurizado certas expectativas e ela, toda cheia de si, julgava-se bem feliz no seu mundo em tons pasteis, apesar da pouca idade. O estranho disso tudo é que a tranquilidade dos solitário não combinava em nada com seu sorriso largo e brilho nos olhos.
Talvez a moça só aprendera, nesse tempo, a receber pacientemente o melhor que a vida lhe dava diariamente a conta-gotas. Esse era o seu mistério, o seu devaneio: ser um flaneur de algo que ela nem sabia que esperava.
Naquela noite ela ainda nem sabia da existência dele, nem ele a dela. Era aquele papo de ser o amigo do amigo que na última hora resolve acompanhar o pessoal no “esquenta” de sexta-feira. Quando ela reparou, o “pessoal” se resumia aos três colegas recém-apresentados. Descontraída, disfarçando a sua timidez natural, entrou no táxi e rumou para o lugar. No bar encontrou outros conhecidos e todos juntos sentaram-se, beberam, cantaram e contaram histórias. Cada qual com as suas e ao mesmo tempo todas caminhando em paralelo.
Ela não sabe ao certo em que momento os sentidos começaram a se cruzar. Só sabia que sentia vontade de estar por perto, que gostava da camisa dele, da barba, do jeito despojado de fumar, do sotaque, do cheiro e sentiu formiguinhas ao dividir o seu brigadeiro com ele.
De lá foram para outro lugar. No novo ambiente, as sensações ainda se dissipavam, mas se espreitavam de longe. Até que em determinado momento, elas bateram de frente e se misturaram de um jeito tão pleno que viraram uma. Caminharam em uníssono de mãos dadas pelas ruas velhas da cidade que já recebia a alvorada.
Sorrateiras as sensações fingiram separar-se na despedida. Muito mais espertas do que os dois, simplesmente clonaram-se. Dormiram e acordaram juntas e não se dividiram mais.
Eles ainda não sabem. Vão cada qual para sua casa, achando que controlam os passos da alma. Mas foi nessa manhã que elas, com aquele sorriso matreiro no canto da boca, sussurraram em meus ouvidos: somos uma. O dia nasceu diferente, mas ninguém ainda sabe por quê.
Dia Branco – Geraldo Azevedo
Talvez a moça só aprendera, nesse tempo, a receber pacientemente o melhor que a vida lhe dava diariamente a conta-gotas. Esse era o seu mistério, o seu devaneio: ser um flaneur de algo que ela nem sabia que esperava.
Naquela noite ela ainda nem sabia da existência dele, nem ele a dela. Era aquele papo de ser o amigo do amigo que na última hora resolve acompanhar o pessoal no “esquenta” de sexta-feira. Quando ela reparou, o “pessoal” se resumia aos três colegas recém-apresentados. Descontraída, disfarçando a sua timidez natural, entrou no táxi e rumou para o lugar. No bar encontrou outros conhecidos e todos juntos sentaram-se, beberam, cantaram e contaram histórias. Cada qual com as suas e ao mesmo tempo todas caminhando em paralelo.
Ela não sabe ao certo em que momento os sentidos começaram a se cruzar. Só sabia que sentia vontade de estar por perto, que gostava da camisa dele, da barba, do jeito despojado de fumar, do sotaque, do cheiro e sentiu formiguinhas ao dividir o seu brigadeiro com ele.
De lá foram para outro lugar. No novo ambiente, as sensações ainda se dissipavam, mas se espreitavam de longe. Até que em determinado momento, elas bateram de frente e se misturaram de um jeito tão pleno que viraram uma. Caminharam em uníssono de mãos dadas pelas ruas velhas da cidade que já recebia a alvorada.
Sorrateiras as sensações fingiram separar-se na despedida. Muito mais espertas do que os dois, simplesmente clonaram-se. Dormiram e acordaram juntas e não se dividiram mais.
Eles ainda não sabem. Vão cada qual para sua casa, achando que controlam os passos da alma. Mas foi nessa manhã que elas, com aquele sorriso matreiro no canto da boca, sussurraram em meus ouvidos: somos uma. O dia nasceu diferente, mas ninguém ainda sabe por quê.
Dia Branco – Geraldo Azevedo
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Balaio, bodega e amor
- Oh, nega do balaio grande...
Esse foi o chamado provocador que ele fez , mas não cantou de qualquer jeito. Cantou olhando na bolinha do olho dela. Na frente do coro uma dezena de moças, todas bonitas e faceiras, sacudiam o pandeiro. Ela estava bem atrás, só balançando. Hipnotizada ouviu o chamado e saiu feito miss. Abriu espaço, segurou a saia, dançou balançado os cabelos e depois devolveu o olhar com malícia redobrada.
Saiu da roda e deixou as outras sambarem. O cabaré estava cheio, parecia que ia faltar trabalho. Resolveu fumar um cigarro e pensar na vida. Seu homem ia longe dali, vivendo vida de mascate trabalhador. Talvez pela senhorita distinta que ela aparentava durante o dia, ele pensava em casamento. Mas o cabaré, assim como o matrimônio, era a sua vida. Não tinha como dissociar, esse conjunto era o que dava conta dela.
Decidiu não trabalhar naquela noite. Deixou para as moça menos abastadas. Pegou seu xale e saiu a caminhar pela rua. Abriu um sorriso pensando no “tamanho do seu balaio” e decidiu parar no botequim pra beber como uma terceira mulher: aquela que simplesmente bebe, ri e canta. Colocou uma moeda na máquina e pegou o microfone: “se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim”. Começou assim, arrancando aplausos dos velhos bêbados do lugar.
Tomou um gole de conhaque e apostou em outra ficha, exatamente, quando ele entrou. Não lhe deu atenção até ele encher seu copo e pedir ao pé do ouvido: Onde anda você. Ela deu um meio sorriso, levantou sem dizer uma palavra e com o olhar de “nega do balaio grande” cantou no meio do bar, mas só pra ele.
Ele, por sua vez, em nada se parecia com o malandro que batucava no cabaré, muito menos com o mascate trabalhador que enchia de bons costumes os seus dias. Um jovem italianinho desleixado com cara de dono de bodega, assim ele era. Conhecia cada freguês daquelas paradas e chamava todos os homens, mulheres e crianças da vizinhança pelo nome. Os seus dias se dividiam entre o trabalho no botequim e a várzea. O seu coração ainda fazia morada na casa da doninha de respeito que ele havia desposado tempos atrás. Ela, tão recatada era, que não saciava os gostos e muito menos competia com o ganha-pão do esposo. Para ser feliz, a pequena resolveu voltar para casa da mãe e esperar que algum centrado advogado resolvesse cortejá-la. Assim foi que o italianinho se viu sozinho na vida, mesmo tendo em sua cama uma dama a cada noite.
Ela não sabia de nada disso, assim como ele também não sabia de onde ela vinha. Acabou a canção e , como há muitos anos, surgiu em seu rosto um sorriso que não era desafiador. Era tímido e delicado. Era uma mistura de tudo. Era a sua verdade. Encostou no balcão, ele aplaudiu baixinho, bem perto dela. Olhou-a com uns olhos diferentes e agradeceu. Hipnotizado disse, enquanto ela balbuciava centenas de palavras desconexas: “você é linda”. Ela se calou e sorriu.
Uma jovem que vinha da labuta noturna resolveu entrar. Logo que soube da fama da nega, investiu em algumas fichas e fez um pedido: canta a Noite do Meu Bem? Lá foi a moça. Colocou-se a postos e cantou de olhos fechados. Quando abriu não avistou mais ninguém, só o italianinho, que não sorria, tinha o ar daqueles que chegam para levar sua mulher embora. Segurou na sua cintura com firmeza e beijou seus lábios de leve: você é linda, linda. Você é minha. Fechou a bodega.
Criou-se um mundo naquele 3 x 4. A ternura foi se transformando em desejo. A moça cantante foi dando lugar à dona do balaio grande. Nas mesas do bar, no balcão, no chão, o italianinho teve a melhor foda da sua vida. Ela, por sua vez, teve o melhor amor do mundo. No dia que nascia ouviram ao fundo: “Quem vem lá? Que horas são? Isso não são horas coração”. Dormiram agarrados em algum canto. Acordaram antes do mundo, selaram um beijo único.
Os dois ainda vivem nas noites e nos dias que amanhecem, cada qual na imaginação do outro. Ele continua a abrir e fechar a bodega diariamente, dormindo a cada noite com uma dona diferente. Ela passa os dias como a senhorita do mascate trabalhador e as noites virando a cabeça dos homens no cabaré. Esqueceu o caminho da bodega, ambos têm medo de encontrar a terceira dona, aquela que mistura tudo. Aquela que tem os olhos, voz, lábios, cheiro e sorrisos da sua vontade.
A Noite do Meu Bem, Dolores Duran.
Esse foi o chamado provocador que ele fez , mas não cantou de qualquer jeito. Cantou olhando na bolinha do olho dela. Na frente do coro uma dezena de moças, todas bonitas e faceiras, sacudiam o pandeiro. Ela estava bem atrás, só balançando. Hipnotizada ouviu o chamado e saiu feito miss. Abriu espaço, segurou a saia, dançou balançado os cabelos e depois devolveu o olhar com malícia redobrada.
Saiu da roda e deixou as outras sambarem. O cabaré estava cheio, parecia que ia faltar trabalho. Resolveu fumar um cigarro e pensar na vida. Seu homem ia longe dali, vivendo vida de mascate trabalhador. Talvez pela senhorita distinta que ela aparentava durante o dia, ele pensava em casamento. Mas o cabaré, assim como o matrimônio, era a sua vida. Não tinha como dissociar, esse conjunto era o que dava conta dela.
Decidiu não trabalhar naquela noite. Deixou para as moça menos abastadas. Pegou seu xale e saiu a caminhar pela rua. Abriu um sorriso pensando no “tamanho do seu balaio” e decidiu parar no botequim pra beber como uma terceira mulher: aquela que simplesmente bebe, ri e canta. Colocou uma moeda na máquina e pegou o microfone: “se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim”. Começou assim, arrancando aplausos dos velhos bêbados do lugar.
Tomou um gole de conhaque e apostou em outra ficha, exatamente, quando ele entrou. Não lhe deu atenção até ele encher seu copo e pedir ao pé do ouvido: Onde anda você. Ela deu um meio sorriso, levantou sem dizer uma palavra e com o olhar de “nega do balaio grande” cantou no meio do bar, mas só pra ele.
Ele, por sua vez, em nada se parecia com o malandro que batucava no cabaré, muito menos com o mascate trabalhador que enchia de bons costumes os seus dias. Um jovem italianinho desleixado com cara de dono de bodega, assim ele era. Conhecia cada freguês daquelas paradas e chamava todos os homens, mulheres e crianças da vizinhança pelo nome. Os seus dias se dividiam entre o trabalho no botequim e a várzea. O seu coração ainda fazia morada na casa da doninha de respeito que ele havia desposado tempos atrás. Ela, tão recatada era, que não saciava os gostos e muito menos competia com o ganha-pão do esposo. Para ser feliz, a pequena resolveu voltar para casa da mãe e esperar que algum centrado advogado resolvesse cortejá-la. Assim foi que o italianinho se viu sozinho na vida, mesmo tendo em sua cama uma dama a cada noite.
Ela não sabia de nada disso, assim como ele também não sabia de onde ela vinha. Acabou a canção e , como há muitos anos, surgiu em seu rosto um sorriso que não era desafiador. Era tímido e delicado. Era uma mistura de tudo. Era a sua verdade. Encostou no balcão, ele aplaudiu baixinho, bem perto dela. Olhou-a com uns olhos diferentes e agradeceu. Hipnotizado disse, enquanto ela balbuciava centenas de palavras desconexas: “você é linda”. Ela se calou e sorriu.
Uma jovem que vinha da labuta noturna resolveu entrar. Logo que soube da fama da nega, investiu em algumas fichas e fez um pedido: canta a Noite do Meu Bem? Lá foi a moça. Colocou-se a postos e cantou de olhos fechados. Quando abriu não avistou mais ninguém, só o italianinho, que não sorria, tinha o ar daqueles que chegam para levar sua mulher embora. Segurou na sua cintura com firmeza e beijou seus lábios de leve: você é linda, linda. Você é minha. Fechou a bodega.
Criou-se um mundo naquele 3 x 4. A ternura foi se transformando em desejo. A moça cantante foi dando lugar à dona do balaio grande. Nas mesas do bar, no balcão, no chão, o italianinho teve a melhor foda da sua vida. Ela, por sua vez, teve o melhor amor do mundo. No dia que nascia ouviram ao fundo: “Quem vem lá? Que horas são? Isso não são horas coração”. Dormiram agarrados em algum canto. Acordaram antes do mundo, selaram um beijo único.
Os dois ainda vivem nas noites e nos dias que amanhecem, cada qual na imaginação do outro. Ele continua a abrir e fechar a bodega diariamente, dormindo a cada noite com uma dona diferente. Ela passa os dias como a senhorita do mascate trabalhador e as noites virando a cabeça dos homens no cabaré. Esqueceu o caminho da bodega, ambos têm medo de encontrar a terceira dona, aquela que mistura tudo. Aquela que tem os olhos, voz, lábios, cheiro e sorrisos da sua vontade.
A Noite do Meu Bem, Dolores Duran.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Baile do ponto cheio
O amor vestiu uma capa no ponto de ônibus e pôs-se a desfilar de rosto colado pela calçada. Em tom sobre tom. Em dedos que se remexiam delicadamente para acarinhar.
Ela maior, ele menor. Ele frágil, ela forte. Dois corpos tão disformes, tão perfeitos. O baile no ponto cheio. O salão de asfalto e suor.
A beleza apreendida por olhos distraídos. A felicidade singela. O recorte que fez brilhar a noite.
Coisa mais bonita, Toquinho
Ela maior, ele menor. Ele frágil, ela forte. Dois corpos tão disformes, tão perfeitos. O baile no ponto cheio. O salão de asfalto e suor.
A beleza apreendida por olhos distraídos. A felicidade singela. O recorte que fez brilhar a noite.
Coisa mais bonita, Toquinho
Para o homem da biblioteca
Tirou os sapatos, as meias eram finas e azuis. O solado parecia gasto e a estatura da sua ossada era mediana. Calça jeans, camisa branca, calvice acentuada, testa franzida.
Deliciava-se com o livro como na sua melhor poltrona. Talvez estivesse.
A mesa da biblioteca, o seu reinado.
O meu olhar, apenas um flâneur de Baudelaire a espreitar sua condição.
Sudoeste - Adriana Calcanhoto.
Deliciava-se com o livro como na sua melhor poltrona. Talvez estivesse.
A mesa da biblioteca, o seu reinado.
O meu olhar, apenas um flâneur de Baudelaire a espreitar sua condição.
Sudoeste - Adriana Calcanhoto.
Suspensa
Não conseguiu chorar, pois julgou descabida aquela culpa. De outras feitas ela carregou a marca do erro. Dessa vez ela só trouxe consigo o hiato que se formou diante da reação.
Foi embora tremendo, reflexo de sentimentos que não se explicavam. Andou pela rua suspensa em si. Indagou-se se fizera bem. Condenou-se por tanta sinceridade. Lembrou da voz ouvida naquela tarde e de como seu peito se encheu de felicidade só em pensar nas possibilidades. A primeira frase inundou seu coração: “amo você...”, o que veio depois das reticências dilacerou.
Fez uma parada no caminho e olhou para o nada. Iemanjá afagou seus cabelos, sussurrando que fizera o certo. Oxossi a sacudiu: estava orgulhoso dela.
Senhora Liberdade (Wilson Moreira / Nei Lopes) - Zezé Motta.
Foi embora tremendo, reflexo de sentimentos que não se explicavam. Andou pela rua suspensa em si. Indagou-se se fizera bem. Condenou-se por tanta sinceridade. Lembrou da voz ouvida naquela tarde e de como seu peito se encheu de felicidade só em pensar nas possibilidades. A primeira frase inundou seu coração: “amo você...”, o que veio depois das reticências dilacerou.
Fez uma parada no caminho e olhou para o nada. Iemanjá afagou seus cabelos, sussurrando que fizera o certo. Oxossi a sacudiu: estava orgulhoso dela.
Senhora Liberdade (Wilson Moreira / Nei Lopes) - Zezé Motta.
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