quinta-feira, 17 de junho de 2010

Baile do ponto cheio

O amor vestiu uma capa no ponto de ônibus e pôs-se a desfilar de rosto colado pela calçada. Em tom sobre tom. Em dedos que se remexiam delicadamente para acarinhar.

Ela maior, ele menor. Ele frágil, ela forte. Dois corpos tão disformes, tão perfeitos. O baile no ponto cheio. O salão de asfalto e suor.

A beleza apreendida por olhos distraídos. A felicidade singela. O recorte que fez brilhar a noite.


Coisa mais bonita, Toquinho

Para o homem da biblioteca

Tirou os sapatos, as meias eram finas e azuis. O solado parecia gasto e a estatura da sua ossada era mediana. Calça jeans, camisa branca, calvice acentuada, testa franzida.

Deliciava-se com o livro como na sua melhor poltrona. Talvez estivesse.
A mesa da biblioteca, o seu reinado.
O meu olhar, apenas um flâneur de Baudelaire a espreitar sua condição.


Sudoeste - Adriana Calcanhoto.

Suspensa

Não conseguiu chorar, pois julgou descabida aquela culpa. De outras feitas ela carregou a marca do erro. Dessa vez ela só trouxe consigo o hiato que se formou diante da reação.

Foi embora tremendo, reflexo de sentimentos que não se explicavam. Andou pela rua suspensa em si. Indagou-se se fizera bem. Condenou-se por tanta sinceridade. Lembrou da voz ouvida naquela tarde e de como seu peito se encheu de felicidade só em pensar nas possibilidades. A primeira frase inundou seu coração: “amo você...”, o que veio depois das reticências dilacerou.

Fez uma parada no caminho e olhou para o nada. Iemanjá afagou seus cabelos, sussurrando que fizera o certo. Oxossi a sacudiu: estava orgulhoso dela.


Senhora Liberdade (Wilson Moreira / Nei Lopes) - Zezé Motta.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Walk

Depois de passar o dia todo trabalhando sem descanso, sem almoço, sem amenidades, resolve colocar a Jill Scott para cantar no fone. Mesmo com a mesa repleta de coisas e ainda faltando 15 minutos para o fim do expediente, a moça sai andando pelos pensamentos. Liga o botãozinho do foda-se e dança sentada em seu lugar. Viagem merecida. Não sentia perfumes conhecidos. Perdia-se em nuvens misteriosas. O que estaria por vir em seu caminho? Sonhava em meio ao cansaço do fim do primeiro turno. Desejou andar. Desejou dissipar a neblina. Desejou sorrisos empolgados. Encantamento sincero. Embriaguez impensada. Desejou avidamente os dias vindouros.


You Got Me - Erykah Badu & The Roots live Woodstock 99

terça-feira, 6 de abril de 2010

Devoção


- Mamãe por que você está triste?
- Nada filha, vai lá ver qual é o desenho que está passando na tv.
A filha sai e volta depois de 2 minutos.
- Mamãe por que você está chorando?
- Nada filhinha.
- Mamãe você não vai me contar por que está triste?
- Depois a mamãe te conta.
Passam mais 2 minutos.
- Mamãe você não vai me contar?
- Vamos olhar os livros? Quer que eu te conte uma história? – a mãe responde enxugando o rosto.
A filha, muito pertinente no alto dos seus quase cinco anos, pondera:
- Mamãe deixa eu te falar. Você tem que me contar o que aconteceu. Eu sou a sua filha, lembra? Nós somos amigas.
A mãe larga um sorriso e a essa altura já nem quer mais saber de tristeza. Tudo ficou menor. Coloca a pequena no colo e lhe conta os seus motivos pincelados de beleza, afinal até as tristezas ficam coloridas diante de tamanha devoção.

terça-feira, 30 de março de 2010

Lugares por aí

A moça saiu de circulação já fazia uns seis meses. Plantou uma vida nova. Livrou-se do que julgava errado, aparou as arestas do passado. Contou seus segredos mais íntimos a fim de conquistar a rendição daquele que julgava amar. Enfim, traçou um destino diferente durante esse tempo de retiro. Quando escolheu o caminho mais difícil o fez com a ingenuidade dos puros. Pensou de fato que as demonstrações de sinceridade lhe renderiam sorrisos, não totalmente abertos, levemente fechados em função do ciúme, mas aquele velho sorriso preso no canto da boca, como que dizendo: “Era isso que eu queria de você”.

Esperava mão na mão e vida nova, regada à felicidade, família, companhia e tudo mais que vinha da parceria tão perfeita dos dois. Não foi assim. O tiro acertou o seu próprio peito e o sangue escorreu. Vieram ofensas e todo tipo de desaforos. Primeiro seu rosto empalideceu. Não entendeu nada, pra ela aquilo lhe parecia tremendamente injusto. Ficou muito tempo sem entender. Lastimou-se. Chorou. Insistiu em cartas surdas. Telefonemas suplicantes. Mas de pouco valeu.

Até que um dia, quando os seus minutos não transcorriam bem e sentia-se desamparada, tentou certo afago. Ganhou resposta áspera e inédita, porém verdadeira. Chorou em silêncio no meio do expediente, mas entendeu. Cansada dos boleros e baladas tristes, colocou um samba para tocar. Mas os seus preferidos nunca foram tão felizes assim. Amiga do Lado B bebeu seu salão vazio. Imaginou par. Uma frase trouxe a redenção: “Sambando para não viver em vão”. Tão triste, tão pequena, tão simples que se tornava bela. Sorriu daquele seu jeito. Imaginou que seus cabelos e sorrisos estivessem fazendo falta em algum lugar por aí. Notou que os lugares por aí andavam fazendo muita falta por aqui. Seu rosto desanuviou.


Tudo que vivi, Wilson das Neves.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lembranças

Chegou em casa como de costume. Entrou e recebeu, surpresa, um abraço que sua pele reconheceria a distância. Poderiam passar todos os anos da sua vida, que ela seria capaz de voltar para casa.

Ela sabia que essa certeza rendia ciúme em todos os pares que já passaram em sua vida, mas naquele momento seu coração era tomado de outro sentimento, que ia longe da paixão. O encontro era só o bom aconchego daqueles que são cúmplices. Comentou o fato dos anos o tornarem parecido com o pai. Ele riu e a olhou de um jeito diferente dizendo que tinha certeza que ela diria aquilo.

O jantar já estava quase na mesa. Correu para o banho. Se livrou do peso do dia. Sentou-se, conversou animadamente. Abriu a primeira latinha e encerrou quase na décima. Deixou de pensar em qualquer coisa insossa. Aproveitou a felicidade das pessoas que amava.

Brincou com a pequenina. Ninou-a nos braços, como nos tempos de bebê. Colocou-a na cama. Ainda conversou um pouco com todos e depois resolveu ir pra cama. O dia havia sido demais para os seus ombros e o cansaço já refletia.

Deitou, percebendo que o dono dos seus olhos adolescentes ainda estava acordado, sentado, fingindo ver tv. Em outros tempos esse seria o sinal para que ela se chegasse. Deitaria no seu peito e vagaria pela noite em pensamentos desconexos. Mas os anos haviam passado e a adolescência ficou pra traz. A vida lhe deu novos planetas e ela já se sentia confortável neles. Achou que não fazia sentido aquele encontro. Adormeceu se sentindo mudada.


Poesia de nós dois, Fundo de Quintal